Por Antonio Carlos Silva Ferreira*
Um homem se humilha
se castram seus sonhos
Seu sonho é sua vida
e vida é trabalho
E sem o seu trabalho
o homem não tem honra
E sem a sua honra
se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Estes são os versos finais da canção “Um homem também chora (Guerreiro menino)” eternizada na inconfundível voz do cearense Raimundo Fagner. A composição, entretanto, é de autoria de outro nordestino, Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, o popular “Gonzaguinha”, e foi gravada pela primeira vez em 1983 no vinil intitulado “Alô Alô Brasil”.
“Eu tenho muito prazer pelo meu trabalho. Será uma revolução o dia que todos brasileiros trabalharem por prazer”. Esta declaração de Gonzaguinha expressa a sua visão de trabalho. Seus versos, de 20 anos atrás, ratificam a declaração e reforçam o que representa

a perda do trabalho para o poeta. No curso desta visão seria justo pensar que “o desemprego empobrece o homem”, e aqui o verbo está sendo empregado não só na sua acepção econômica, mas também no sentido emocional. Conheço pessoas que já experimentaram a situação e mesmo tendo quem os sustentasse (família, poupança, outros rendimentos, Seguro-Desemprego) por um tempo, ressentiram-se da insuportável sensação de inutilidade e sentiram falta de executar aquilo que gostavam de fazer.
O desemprego tem ocupado as manchetes dos jornais locais e mundiais nos últimos dias. No Brasil, os partidos agora de oposição aproveitam para lembrar que o número 13, que simboliza o PT, representa também o alarmante indicador de desemprego alcançado no decorrer da gestão de Lula. Na Holanda, o governo anda assustado com a iminente possibilidade de ser ultrapassada a barreira dos 500 mil desempregados, número preocupante se considerado que a população total daquela nação de primeiro mundo é de 16 milhões de habitantes. O Uruguai enfrentou recentemente uma greve geral em protesto contra o desemprego, o qual alcançou índice recorde na história nacional, no contexto do que se tem sido considerada a pior crise econômica e financeira do país.
Caso japonês
A mais contundente notícia, entretanto, parece ser a que nos chega do Japão. Lá o número de suicídios aumenta, influenciado por uma taxa de desemprego de 5,4% que, embora bem menor que a nossa, é a maior taxa no Japão do pós-guerra. No ano passado, registrou-se no país do sol nascente um número de suicídios semelhante ao dos EUA, lembrando que os conterrâneos de Bush somam o dobro da população japonesa. Pelo quinto ano consecutivo contam-se mais de 30 mil casos de suicídios no Japão, a terceira pior marca desde 1978, ultrapassada apenas pelas marcas de 98 e 99.
O país que sobreviveu à bomba atômica introduziu no mundo diversos conceitos de qualidade e produtividade e causou espantou com acelerada prosperidade tecnológica e econômica, não tem conseguido crescer de maneira sustentada nos últimos dez anos. A desaceleração da economia mundial e o alto nível de endividamento do país têm sido apontados como as causas das crescentes demissões, que são parte da estratégia das corporações para manter a lucratividade.
Especialistas consideram simplista atribuir os suicídios a uma única causa, mas sabe-se que quase metade dos suicidas estava sem emprego, e a maioria tinha mais de 40 anos. Acostumados à era do emprego vitalício, poucos deles conseguem lidar com
a perda do trabalho que muitas vezes representa a sua própria identidade.
Segundo a Agência Nacional de Polícia, o destaque dentre os motivos de suicídio foi para os ligados a razões econômicas e profissionais (25%) sendo que mais da metade destes casos envolvia problemas com pagamento de dívidas e 15% estava relacionado à dificuldade de encontrar emprego.
Alternativa
O criticado programa de reformas do governo japonês tem como slogan “Sem dor não há lucro” e a divulgação desses dados de suicídio levou o primeiro-ministro a defender o governo afirmando que sem as reformas haveria ainda mais dor.
Revisitando a teoria da Administração Científica, lembramos do conceito do Homus Economicus e do pensamento de Taylor, segundo o qual o homem trabalha não porque gosta mas para ganhar a vida. A Revolução Industrial trouxe o conceito de que “O Trabalho Enobrece o Homem” ou “O Trabalho Dignifica o Homem”, combatido com veemência pelos socialistas, para quem o capitalismo dourou a pílula taylorista para convencer as pessoas a aceitarem a condição de recurso humano e executarem tarefas muitas
vezes repetitivas e enfadonhas mas que dão lucro aos donos dos recursos. E para que os salários se fizessem menores e o lucro maior, profetizaram que “Dinheiro Não Traz Felicidade”.
Entre a ótica do poeta, os conceitos do capitalismo e as idéias tayloristas, penso que pode haver lugar para uma realidade onde as pessoas possam viver em cooperação, exercendo atividades que lhes dêem prazer e dignidade, e que ao invés da prematura morte auto-provocada, se possa “Viver e não ter a vergonha de ser feliz”.
* Fotógrafo amador,ex publicitário e Bancário da Caixa Econômica Federal. Reside em Salvador.

Nenhum comentário:
Postar um comentário